Porque quando era criança, você dizia – Calce os sapatos, não ande descalço, eu não calçava; vista um agasalho que está frio, eu não vestia; não coma doces demais, e eu comia.
Quando era adolescente, você dizia – olhe com quem anda, as companhias nos levam a fazer coisas, e algumas vezes nem sempre fazemos a coisa certa, mas eu não ouvia; não beba, eu bebia; não corra com o carro, e eu corria; cuidado com as drogas, mas fui experimentar!
Quando adulto, e a senhora já velhinha, eu lhe dizia: Não sei o que os velhos acham de viver tanto, será que não percebem que incomodam? Eu preciso viver minha vida!
E quando a senhora me perguntava alguma coisa com sua voz mansa, tentando não me irritar, algo que lhe dizia respeito, e com certeza seria importante para a senhora, mas não para mim, eu respondia com aspereza sem nem mesmo ouvir direito o que a senhora perguntou e gritava: será que não posso ter paz? Nem ir almoçar eu posso? Vou dar uma saidinha e tenho que ficar lhe dando explicações? E a senhora calada voltava para o seu canto, ao silêncio que minha ignorância a obrigava ficar.
Quantas vezes não lhe dei o abraço que a senhora esperava, quantas vezes não respondi o “até logo meu filho” ao sair para o trabalho.
Tantas vezes deixei de ver o seu rosto sofrido, sofrimento causado pela minha aspereza e falta de respeito. Quantas vezes não vi as lágrimas furtivas em seus olhos sempre meigos!
Quantos beijos eu lhe dei na vida? Não me lembro. Foram poucos. Afinal não tinha tempo para essas coisas. Tanta vezes deixei de amá-la!
Hoje, aqui sentado ao lado de seu caixão, olhando seu rosto sereno como sempre, mas já sem lágrimas, vendo seu pequeno e magro corpo que nunca mais irá me incomodar, então tomo consciência de que nunca mais a verei!
Será que adianta lhe pedir perdão?
Perdão pelos beijos não dados, pela falta de respeito, pelo excesso de ufanismo, mesmo sabendo que a senhora tem o direito de não perdoar?
Não a conheço bem e não me permiti conhecê-la. Nunca estive muito ligado em seus sentimentos, não sei se me perdoará.
Mas mesmo assim, espero que um dia me perdoe.
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